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MARIA DA PENHA

'Crianças que perdem as mães são as maiores vítimas'

Maria da Penha esteve em Cuiabá para celebrar 13 anos da lei contra violência doméstica e relatou sua história de dor e superação

Felipe Leonel

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13/08/2019 09h48 | Atualizada em 13/08/2019 10h06

'Crianças que perdem as mães são as maiores vítimas'

TJMT

A Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (Cemulher/TJMT) realizou na última sexta-feira (9) um evento para debater os 13 anos de vigência da Lei Maria da Penha, considerada a terceira melhor legislação mundial de combate à violência doméstica do mundo. 

O evento, que teve participação de mais de 800 pessoas no auditório Zulmira Canavarros, contou com a participação da biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, que empresta o nome à Lei 11.340/06. Durante o ‘Colóquio 13 anos Maria da Penha’, ela também discorreu sobre o seu livro “Sobrevivi... posso contar”. 

Durante seu discurso, o tom de voz baixo e cheio de sinceridade fez com que todo o auditório ficasse em silêncio para ouvir o seu relato, no qual quase chegou à morte.

“Sempre que recordo as agressões que sofri a dor se repete. Mas sei que minha voz é importante para a luta contra a violência às mulheres. Isso me conforta”, relatou Maria da Penha, emocionada. 

Maria da Penha sofreu duas tentativas de assassinato em 1983, por parte de seu ex-marido, Marco Viveros, com o qual tinha três filhas, de sete, cinco e dois anos.

“As crianças que perdem as mães são as maiores vítimas invisíveis da violência doméstica e muitas vezes têm que continuar morando com aquele que matou a mãe”, relatou. 

Desde a tentativa de feminicídio, Penha lutava para a condenação de seu ex-esposo, o que veio a ocorrer somente em 2002, dezenove anos após o crime e seis meses antes da prescrição. Para quem sofreu a agressão, a Justiça está longe de ser feita. “O homem que tentou tirar a minha vida duas vezes está solto”, desabafou. 

Embora os números exatos de feminicídio não sejam possíveis de se encontrar, estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que a cada 10 feminicídios registrados em 23 países da região, quatro ocorreram no Brasil. Os dados são de 2017. 

“Foi uma surpresa grande ver a minha luta pessoal beneficiar tantas mulheres que, assim como eu, foram agredidas. Se na minha época já existisse a lei, meu agressor teria tido uma pena mais severa”, acredita. “Fico pensando, se minha luta não tivesse tomado o rumo que tomou será que eu seria feliz?”, disse. 

Em 2009, foi criado o Instituto Maria da Penha para fortalecer a causa. De acordo com dados do Mapa da Violência de 2015, o Brasil registra pelo menos 13 casos de feminicídio diariamente. De acordo com Penha, isso coloca o país na quinta posição dos países que mais matam mulheres no mundo. Penha sustenta que isso é resultado de uma cultura machista.

“Nossa cultura machista só será desconstruída por meio da conscientização de crianças e adultos. O Instituto Maria da Penha não realiza ações diretamente com as vítimas de violência, mas tem, por exemplo, parceria com universidades de Fortaleza e do Recife. Oferecemos o curso ‘Defensores e defensoras do direito à cidadania’, desde 2011”, conta.

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