VITÓRIA NA GUERRA

Soja de Mato Grosso causa ciúmes nos EUA

A briga entre Estados Unidos e China cria perspectivas de aumento da procura por soja no Brasil, com destaque para Mato Grosso

Priscilla Silva

Acesse o Blog

21/08/2019 05h08 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Soja de Mato Grosso causa ciúmes nos EUA

Reprodução

Maior produtor de soja do Brasil, Mato Grosso vê na guerra comercial entre a China e os Estados Unidos uma possibilidade de faturar. Além do fator político internacional, também contribuem para essa expansão a afinidade do estado com a cultura da soja e a disponibilidade de áreas. Somente em julho deste ano, o Brasil exportou mais de 6,377 milhões de toneladas de soja para a China, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

A procura pela soja brasileira ocorre depois que o governo chinês passou a tributar em 25% alguns produtos agrícolas americanos, entre eles a soja. A medida foi uma resposta ao aumento das tarifas sobre bens industrializados da China, feito pelo governo americano.

Na análise do economista Vitor Galesso, a busca pelo mercado brasileiro é natural. O Brasil é o segundo maior produtor de soja no mundo, com uma produção de 114,843 milhões de toneladas na safra 2018/2019, ficando atrás só dos Estados Unidos, que produziu 362,075 milhões de toneladas. Os dados são referentes ao levantamento da Conab do mês de junho.

“Os maiores exportadores de soja são o Brasil e a Argentina. Com a guerra comercial, o governo chinês, que é muito forte, retalia as taxações dos EUA, evitando comprar soja dos EUA e passa comprar do Brasil”, afirma o economista. 
Para a próxima safra, o economista prevê um aumento da produção de soja em Mato Grosso. “Graças a essa guerra comercial, já temos uma perspectiva de crescimento, além do aumento natural em torno de 5% a 10%, que ocorre anualmente”.   

Diante das perspectivas positivas, o produtor de soja vê com cautela a guerra entre a China e os EUA. Miguel Vaz, agricultor da região Médio-Norte do estado, avalia que existem dois cenários econômicos para a exportação de soja. 

“Para mim existem dois momentos: o que estamos vivendo agora, que é favorável para a produção de soja e outros produtos. No entanto, isso pode ter um tempo curto, um acordo pode ser feito lá na frente. Em resumo, é claro que a taça quebrou e não fica mais perfeita. Então, talvez seja consolidada essa parceria da China com o Brasil, podendo ser mais duradoura. Porém, independente disso, eu tenho que ficar mais atento, pois tenho que observar a oferta e demanda mundial e ser competitivo dentro deste cenário”, avalia.

Para a próxima safra, Vaz planeja aumentar sua área plantada em 4%. O percentual advém de um cálculo cauteloso feito pelo produtor, que pretende atender às demandas naturais do mercado, com uma possível concretização de ampliação das exportações para a China.

“O Brasil e nossa região vão aumentar a produção, não aceleradamente. Temos uma região propícia para expansão, com muita área de pastagens degradada, que pode se converter pra produção agrícola, mas isso será lento. O produtor hoje não pode ser só produtor, ele tem que melhorar o nível de resultado através de planejamento, execução dele e ter boa gestão”. 

Apesar da prudência com o futuro, Vaz acredita que a guerra comercial beneficiou o produtor brasileiro. “Mais de 70% [da soja] brasileira vai para China. Isso aumentou nos últimos anos, ainda mais com essa guerra comercial. Se a guerra comercial não tivesse acontecido, provavelmente o produtor teria uma remuneração menor”.

Demanda e dólar em alta elevam o preço da soja

Maior produtor de soja do Brasil, Mato Grosso produziu 32,831 milhões de toneladas na safra 2018/19, distribuídas em 9.722 milhões de hectares de área plantada, conforme dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). 

A soja em Mato Grosso fechou a última semana cotada a uma média de R$ 68,93 por saca, um avanço de 2,13%. De acordo com o Imea, a demanda aquecida e o dólar em alta sustentaram a elevação dos preços. 

O preço do contrato para março de 2020 também encerrou com elevação de 1,63%, com média de R$ 67,31 por saca. “Este cenário foi consequência da alta das cotações atrelada à valorização do dólar”, descreve o relatório semanal do instituto de pesquisa.

O boletim também faz projeções para próxima safra. O Imea divulgou na última semana o novo custo de produção de soja no estado para a safra 19/20, referente ao mês de julho. Com os novos dados, o custo variável passa a ser R$ 3.146,11/ha, enquanto o custo operacional ficou em R$ 3.492,99/ha. Ambos apresentaram uma leve queda de 0,15% ante o mês anterior.

Resultados precisam de tempo para concretizar

A percepção de um aumento do volume de exportação para a China deve ser concretizada com o tempo.  A avaliação é do economista Vitor Galesso, ao confrontar os dados do Conab. O relatório aponta que em julho de 2018 o Brasil exportou para China mais de oito milhões de toneladas de soja, já no mesmo mês deste ano foram 6,3 milhões. 

“Na verdade, não é tão simples assim. O embarque de soja é feito em navios que levam 80 mil toneladas, 40 mil toneladas, dependendo do tamanho da embarcação. Esses embarques demoram, as operações não terminam da noite para o dia. Esse é o grande ponto, pois tem que ter cautela. Você só vai ver resultado no somatório do final do ano. Ainda assim, neste ano não deve ter grande diferença, porque estamos lidando com operações de soja que já foi vendida. Portanto, existem todos esses aspectos até tornar-se realidade. Trata-se muito mais de perspectiva do que uma realização imediata”. 

Apesar do otimismo, o economista alerta que a situação favorável para o Brasil pode ser temporária.

“Percebe-se que são negócios e certamente o governo americano não vão ficar brigando e perder o mercado. Eles vão encontrar uma maneira de resolver isso e recuperar, mas é fato que o que está ocorrendo agora faz a gente vender mais”. 

O especialista observa um movimento cuidadoso dos produtores. Primeiro, porque a briga entre os dois países terá um fim; e segundo é que o alinhamento político entre o governo brasileiro com o americano também pode atrapalhar uma possível expansão do mercado chinês no Brasil. 

“Produtor vê com otimismo, porém com cautela, por dois motivos: um é o alinhamento direto do governo do Brasil com os EUA; e segundo é que todos sabem que se trata do mundo de negócios, que pode ser maravilhoso, mas não pode depositar tudo nessa a perspectiva”. 

Comente, sua opinião é Importante!