SURTO NA CHINA

Coronavírus assusta e dólar escala com a benção de Guedes

O presidente do BC insistiu que "o câmbio é flutuante", admitindo que, em boa parte, está depreciado devido aos juros baixos.

13/02/2020 08h25 | Atualizada em 13/02/2020 08h37

Coronavírus assusta e dólar escala com a benção de Guedes

Reprodução

Uma reviravolta no quadro do coronavírus pode assustar os investidores globais, que já se acomodavam com a aparente redução dos casos e foram surpreendidos por um salto nos números de infectados e mortes em Hubei, na noite de ontem. Aqui, os mercados já estavam fechados, quando Guedes voltou a falar de câmbio, defendendo o "quatro com quatro", dólar a R$ 4 e juro a 4%, no dia em que a moeda bateu R$ 4,35. Entrevistado à noite na GNews, Campos Neto não entrou na polêmica, nem deu nenhuma pista sobre mais cortes da Selic.

O presidente do BC insistiu que "o câmbio é flutuante", admitindo que, em boa parte, está depreciado devido aos juros baixos, que estreitaram o diferencial de taxas, levando embora o investidor que buscava yields.

Fez questão, no entanto, de mostrar tranquilidade com o preço atual do dólar, afirmando que, ao contrário de outros tempos, a alta não está associada a uma deterioração das condições de risco.

Campos Neto não teve a chance de corrigir ou validar as novas expectativas de retomada das quedas da Selic, reforçadas nesta 4ªF, após os dados fracos do varejo em dezembro (-0,10%, da previsão de +0,20%).

Mas o mercado pode considerar suas avaliações sobre o coronavírus para seguir nessa aposta, que já voltou a derrubar a curva do DI. Segundo RCN, é difícil mensurar o impacto da epidemia, mas "certamente haverá".

Chegou inclusive a citar os "gráficos" da noite passada, que mostravam o aumento dos casos da epidemia.

Os novos números foram confirmados pelo site oficial da China, Global Times, revelando 14.840 infectados apenas ontem (13/2), de 1.638 na véspera, e 242 mortes, de 94 registradas no dia 12/2.

Autoridades de Pequim informam que o aumento expressivo dos casos é devido a um novo critério para a contagem da epidemia, que agora inclui diagnósticos clínicos, e não os testes de laboratório exclusivamente.

Ainda que os mercados se esforcem para aceitar essas explicações, no mínimo, a notícia revela que os casos de diários do coronavírus já ocorriam em maior proporção ao que vinha sendo divulgado pela China.

Isso se traduz em mais desconfianças e mais incertezas sobre quando a epidemia será controlada, e quanto poderá impactar para a economia da China, que está parada há semanas, e para o resto do mundo.

Já nesta madrugada brasileira, os futuros de NY mostravam preocupação, enquanto as commodities voltavam a cair e o dólar ganhava terreno. A maior expectativa é para a abertura dos mercados em Wall Street.

COM A BÊNÇÃO DE GUEDES - Aqui, o ministro deu motivos para o dólar. "O câmbio não está nervoso, mudou para R$ 4" (...) "É melhor um dólar a R$ 4 e um juro a 4%, do que um câmbio a R$ 1,80 e o juro de 14%".

Guedes disse que o Plano Real "jogou os juros na Lua" e se complicou, mais uma vez, para defender o câmbio mais depreciado. "Quando o dólar estava barato, até empregada doméstica ia pra Disney".

Ele não esconde que quer o juro baixo para reduzir a dívida pública: "já gastamos R$ 70 bilhões a menos em juros em 2019; este ano, a economia será de R$ 120 bilhões; em dez anos, de R$ 1 trilhão".

O problema é que o dólar não está estabilizado em R$ 4; está escalando, renovando máximas sobre máximas com os indicadores mais fracos da economia, que geram a torcida por maior afrouxamento monetário.

Quanto mais o mercado aposta que a Selic vai continuar caindo, porque a atividade e o choque do coronavírus são deflacionários, mais o dólar avança. E mais volatilidade há no mercado de juros e câmbio.

No Twitter, Sergio Goldenstein, que foi chefe do Departamento de Mercado Aberto do BC, comentou:

"Esse comportamento do câmbio acaba afetando negativamente o setor real, o País precisa importar bens de capital para crescer de forma sustentável, sem contar que a volatilidade atrapalha as decisões de investimento."

Nesta 4ªF, o real teve o pior desempenho entre os emergentes, fechando a R$ 4,3505 (+0,57%), após atingir a máxima intraday de R$ 4,3535, enquanto os juros futuros devolviam prêmios em toda a curva.

O fluxo cambial positivo em US$ 3,6 bilhões na primeira semana de fevereiro não foi considerado tendência. Boa parte das entradas pela via financeira parece ter sido para cobrir a operação de Petrobras do BNDES.

Nos juros, apenas um dia depois de a ata do Copom ter citado a defasagem dos efeitos da política monetária para justificar a sua decisão de interromper o ciclo de quedas da Selic, o mercado voltou ao modo corta-corta.

No fechamento após os ajustes, o DI para jan/21 projetava taxa de 4,225% (de 4,235%); jan/22, mínima de 4,790% (de 4,851%); jan/23, 5,370% (de 5,422%); jan/25, 6,040% (de 6,072%); e jan/27, 6,390% (de 6,421%).

AGENDA - Guedes vem hoje a SP, onde almoça com o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, às 12h30.

Entre os indicadores, o ritmo do setor de serviços (9h) em dezembro, medido pelo IBGE, deve vir fraco na margem, para ampliar as especulações de que o Copom será obrigado a retomar o ciclo de cortes da Selic.

A mediana do Broadcast indica retração de 0,50% para o dado, na série com ajuste sazonal, após um novembro já enfraquecido (-0,10%), que baixou a bola do otimismo com resultados de setembro (1,50%) e outubro (0,80%).

O piso das estimativas entre os analistas é de queda de 1,10% e o teto é de avanço discreto, de 0,20%.

 Já no acumulado de 2019, o indicador pode registrar a primeira alta em cinco anos: 1%. Em 2018, ficou estável.

BALANÇOS - BB divulga resultado antes da abertura. Suzano promove teleconferência às 10h30.

LÁ FORA - Embora não seja o dado de inflação mais observado pelo Fed (que gosta é do PCE), o CPI de janeiro (10h30) dos EUA não deixa de ser um termômetro importante. Deve subir 0,1% (índice cheio) e 0,2% (núcleo).

Três Fed boys com direito a voto falam: Robert Kaplan (14h45) e, à noite, John Williams (10h30) e Randal Quarles (21h15). O Comitê Bancário do Senado realiza audiência (12h) sobre duas indicações de Trump ao Fed.

Na Europa, a AIE publica relatório mensal sobre o petróleo (6h) e, na Alemanha, sai o CPI de janeiro (4h).

REFORMA TRIBUTÁRIA - Guedes disse que a equipe econômica enviará ao Congresso nas próximas duas semanas a primeira parte de sua proposta própria, com a criação do IVA (Imposto sobre Valor Agregado) dual.

Segundo ele, será um texto "acoplável" às outras matérias em debate. O ministro disse a secretários estaduais de Fazenda que o governo buscará construir uma proposta de reforma tributária conjunta com os Estado.

Não ficou claro qual será o formato, se uma PEC ou sugestões a serem trabalhadas no Congresso.

PEC DOS FUNDOS - A equipe econômica levou um susto ontem, quando o relator da proposta, Otto Alencar, apresentou seu parecer, incluindo uma emenda que retira do teto de gastos, por um ano, despesas de R$ 32 bi.

Segundo a Broadcast ouviu de fontes, o impacto bilionário do relatório, na primeira grande flexibilização do teto de gastos, caiu como uma bomba na equipe de Guedes. A avaliação preliminar é que o texto é um "tiro" no teto.

O relator rebateu a avaliação de que se trata de um "fura-teto" e disse que, se houver convencimento de romperá o limite, "altero o parecer". No Valor, para não correr risco, o governo já cogita abandonar a PEC.

XADREZ POLÍTICO - Bolsonaro tirou Onyx Lorenzoni da Casa Civil e convidou o general Walter Braga Netto para o cargo. Onyx será acomodado no ministério da Cidadania, numa solução vista por aliados como vitoriosa.

A nova pasta assumida por Onyx, com impacto social, deve servir como vitrine política para sua participação nas eleições de 2022. Além disso, depois de ter sido fritado no governo, ele ainda sai com um cargo na Esplanada.

O ÚNICO JEITO DE GANHAR DINHEIRO - A Selic no piso é a maior responsável pelo desempenho positivo do Ibovespa, diante da migração da renda fixa para as ações, com o investidor sem alternativa de rentabilidade.

Com o juro na mínima histórica, a bolsa foi o lugar que sobrou para o investidor tentar faturar. Ontem, na máxima, o índice à vista superou 117 mil pontos, mas perdeu algum fôlego e fechou a 116.674,13 pontos (+1,13%).

O debate ressuscitado de corte da Selic animou os papéis das varejistas. Magazine Luiza avançou 3,08%, Via Varejo ON ganhou 2,53%, Lojas Americanas teve alta de 0,66% e Renner registrou valorização de 0,28%.

O Ibovespa entra agora em um período mais especulativo, com o exercício das opções na próxima 2ªF. A cautela contratada para a abertura, com o salto nos casos de coronavírus, pode jogar a favor dos interesses dos vendidos.

As blue chips das commodities estão prontas para corrigir, com a releitura sobre a aceleração no contágio.

Ontem, quando o noticiário ainda animava, com a menor taxa de novos casos em duas semanas, o minério de ferro (+0,86%) ampliou o rali das ações da Vale ON (+1,96%, a R$ 53,07), CSN ON (+2,04%) e Gerdau PN (+0,90%).

Petrobras também pode estar com o dedo na agulha para um ajuste negativo, depois de ter subido bem nesta 4ªF. O papel PN registrou valorização de 2,20%, para R$ 30,13, e ON fechou cotado a R$ 32,55, em alta de 1,69%.

Além seguir o petróleo, a estatal comemorou a decisão de Toffoli (STF) de manter a determinação do TST que estipula multa diária de R$ 2 milhões aos sindicatos, se não for mantido efetivo de 90% durante greve.

Lá fora, a percepção de que o coronavírus estava se disseminando em ritmo mais lento resgatou a marca dos US$ 50 para o petróleo WTI para março (US$ 51,17, alta de 2,46%). O Brent (abril) foi a US$ 55,79 (+3,30%).

Eletrobras (ON, +1,75%, e PNB, +1,17%) reproduziu os discursos otimistas do presidente da empresa, Wilson Ferreira, e do ministro Tarcísio (Infraestrutura) sobre privatização, embora não pareça haver clima no Congresso.

Para Ferreira, a capitalização é necessária para poder aumentar investimentos. De seu lado, o ministro calculou que os investimentos anuais poderão mais do que quadruplicar, de R$ 3,6 bilhões para R$ 15 bilhões.

As ações dos bancos, que passaram recentemente por um breve período de respiro, voltaram a cair: Bradesco PN, -1,34% (R$ 33,93), e Itaú, -0,40% (R$ 34,93). Só BB subiu (ON, +0,58%), apostando no balanço de hoje.

O COPO MEIO CHEIO - O receio de ficar de fora do entusiasmo das notícias de taxas mais baixas de infecção pelo coronavírus levou as bolsas em NY para mais um recorde triplo, que tende a ser devolvido já na abertura hoje.

Os mais pessimistas (ou realistas) já alertavam ontem que a contagem dos casos de coronavírus pudesse estar sendo subestimada e que era cedo para afirmar que o pior da epidemia na China havia ficado para trás.

A OMS advertiu que a doença poderia "ir para qualquer direção", embora o contágio não parecesse agressivo fora da China. Mas o mercado vive de oportunidade e quis aproveitar a aparente redução do ciclo do surto.

Mesmo porque, entendeu que o impacto da epidemia não afetará de forma imediata a política monetária do Fed, de acordo com os recados que Powell tentou transmitir esta semana nos testemunhos ao Congresso.

Escrevendo novas máximas históricas, o índice Dow Jones fechou em alta de 0,94%, a 29.551,42 pontos, o S&P 500 encerrou o dia com valorização de 0,65%, a 3.379,45 pontos, e o Nasdaq ganhou 0,90%, a 9.725,96 pontos.

Pelo segundo pregão seguido, os juros dos Treasuries avançaram, com o yield da Note de dez anos a 1,627%, de 1,592%. Também a segurança do iene (-0,27%, a 110,085/US$) e franco suíço (-0,27%, US$ 1,0222) foi dispensada.

Já o euro (-0,47%, US$ 1,0868) sentiu a queda de 2,1% na produção industrial do bloco comum em dezembro na comparação com novembro, quando a expectativa entre os analistas de mercado era de um recuo menor, de 1,6%.

EM TEMPO... Lucro da SUZANO recuou 60,7% no 4TRI (R$ 1,175 bilhão); Ebitda ajustado ficou em R$ 2,465 bilhões, com queda de 31% no comparativo anual, e receita líquida somou R$ 7,049 bilhões no período, recuo de 3%...

Após fusão com a Fibria, companhia capturou R$ 763 milhões das sinergias em 2019 e prevê R$ 1,1 bi a R$ 1,2 bi até 2021; presidente da empresa também anunciou que não serão pagos os dividendos relativos ao ano passado.

DURATEX. O lucro recorrente atingiu R$ 157,7 milhões no 4TRI, crescimento de 4,3%. O Ebitda ajustado e recorrente somou R$ 278,3 milhões, avanço de 17,5%, e a receita totalizou R$ 1,378 bilhão (+9,1%)...

O conselho de administração aprovou pagamento de JCP de R$ 0,37 por ação dia 28.

AEGEA SANEAMENTO. Lucro aumentou seis vezes no 4TRI, para R$ 102,3 mi; receita subiu 14%, para R$ 610,54 mi.

TOTVS reverteu prejuízo e reportou lucro líquido de R$ 65,3 mi no 4TRI; Ebitda subiu 40,5%, a R$ 109,263 milhões.

Companhia informou que AGE vai deliberar sobre desdobramento de ações de 1 em 3.

BANCO INTER lucrou R$ 24,7 mi (+10,7%) no 4TRI. Em 2019, lucro somou R$ 81,6 milhões (+16,4%).

CAIXA anunciou taxa mínima de crédito imobiliário para PJ em 6,50%, de 9,25%, com IPCA e CDI como indexadores.

PETROBRAS. Laudo de avaliação da e-Petro indica patrimônio líquido de R$ 39,4 mi, com base em dados de 2018...

Estatal informou, em rede de comunicação interna, pagamento de prêmio aos não grevistas.

ODEBRECHT. Justiça concedeu liminar que proíbe voto de bancos com garantia na recuperação da empresa. 

MENDES JUNIOR comunicou que a Justiça suspendeu ato de exclusão de empresa do Refis, instituído em 2000.

ELETROBRAS confirmou 68 demissões até abril: 61 da Eletronorte e sete da própria holding, por meio de programas de desligamento voluntário, em medida que visa atingir uma meta de redução do quadro de pessoal.

COPEL. Conselho aprovou pedido de enquadramento da SPE F.D.A em decreto do MME, visando nova outorga.

UNIPAR aprovou o cancelamento de ações mantidas em tesouraria, em um total de 3.862.569, ou 4% das ações.

HYPERA. MPF denunciou fundador da farmacêutica e executivos por suposto pagamento de propina a senadores.

GUARARAPES informou que a Riachuelo fechou acordo para operar a marca Carter´s com exclusividade no Brasil.
 

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