PUBLICIDADE
HISTÓRIAS REAIS

Orgulho em dizer: sou catadora!

Lucimara não tem vergonha de seu trabalho, mas pede à neta que não comente sobre o assunto para não sofrer bullying de amigos e colegas

Tarley Carvalho

Acesse o Blog

08/11/2019 09h35 | Atualizada em 08/11/2019 08h12

Orgulho em dizer: sou catadora!

Gilberto Leite

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”, é o que nos ensina Gonzaguinha desde 1982, quando lançou a música “O que é, o que é?”. Aos 50 anos de idade, Lucimara Abadia de Souza sabe muito bem o que significam essas palavras. Há quase 15 anos, ela trabalha como catadora de materiais recicláveis no aterro sanitário de Cuiabá. Na lida do dia a dia, ela ostenta um sorriso que vai de orelha a orelha e conta, de forma muito leve, os preconceitos pelos quais já passou – e pelos quais ainda passa – pelo serviço que desempenha para levar comida à mesa.

Ser humilhado, alvo de apontamento de dedos, já não é fácil para um adulto. Quando se trata de crianças, o caso é ainda mais emblemático. Recentemente, Lucimara viu sua neta ser humilhada na escola onde estudava pura e simplesmente por ter uma avó que trabalha no “lixão”.

“Tem muito preconceito. As pessoas pensam que somos pessoas porcas e nojentas. Na minha rua mesmo eu sou discriminada. Eu peço pra minha neta não falar que eu trabalho aqui porque ela estudava em outra escola e sofreu preconceito. As crianças riam dela, dizendo que ela era lixeira. Agora, ela estuda em outra escola e eu peço pra ela não comentar que eu trabalho aqui”, narra.

Há alguns anos, especialistas de diversas áreas, como pedagogos e psicólogos, alertam para os problemas causados pelo bullying, prática de atos violentos, intencionais e repetidos contra uma pessoa indefesa. Toda essa violência pode causar danos físicos e psicológicos às suas vítimas.

De fato, trabalhar em meio a montanhas de lixo é algo que suja as roupas de qualquer pessoa, mas Lucimara pondera que diversas classes de trabalhadores estão sujeitas a isso e que nem por isso essas pessoas são ‘porcas’. Isso porque, ao chegar em casa, os hábitos de higiene pessoal são como os de qualquer outro trabalhador.

UMA FAMÍLIA – Enquanto é hostilizada na cidade, no aterro Lucimara se sente acolhida, como uma família formada pela amizade.

“Gosto de trabalhar aqui porque eu me sinto bem. Aqui, fazemos amizades, ninguém desfaz de ninguém. Aqui é bom. As pessoas têm preconceito, mas eu tenho orgulho em dizer que sou catadora. (...) Aqui a gente vê alegria, todo mundo sorrindo, contente. É por isso que eu amo. Enquanto muitos discriminam, nós somos felizes. Eu amo isto aqui. Eu amo este lugar!”, compartilhou.

Pelo fato de ela ser bastante popular no “lixão”, nossa entrevista com Lucimara foi constantemente interrompida, devido aos vários cumprimentos e acenos de outros catadores que passavam por nós.

Em seu rosto, além do sorriso estampado, manchas de sujeira ficam em segundo plano. É o que acontece com quem estampa um misto de simpatia, acolhimento, respeito e felicidade.

Sonho de terminar muro faz catadora trabalhar no escuro

Durante nossa entrevista, questionamos Lucimara sobre seus sonhos próximos e ela explica que seus maiores desejos estavam relacionados a ver o crescimento dos filhos e que já foram realizados. Agora, ela tem sonhos mais modestos.

“Meu sonho é muito simples: é terminar de fechar o muro da minha casa. Com a glória do Senhor Jesus Cristo, eu vou conseguir. São só 15 metros de construção. Meus filhos já cresceram, meus netos estão grandes e hoje eu me sinto feliz!”, concluiu. 

Apesar de amar o serviço que tem, a catadora Lucimara Abadia de Souza deixa claro que o trabalho exige determinação e, principalmente, estômago, no sentido figurado da palavra. Quando se está ali, é preciso ficar atento com os caminhões que chegam e despejam as montanhas de lixo. São vários os riscos aos quais os trabalhadores estão sujeitos: caminhão de lixo, máquinas compactadoras, cacos de vidro, além de estar o tempo todo sob o sol escaldante de Cuiabá.

“Aqui tem que “ter sangue na veia” pra aguentar. Agradeço a Deus todos os dias porque tenho um lugar pra trabalhar. Já vi gente sair daqui desmaiada”, explicou.

A lida não para quando anoitece. Para ter uma renda maior, Lucimara também trabalha depois do pôr do sol, quando a atividade se torna ainda mais perigosa. Como não tem iluminação no local, os catadores se limitam a colocar uma lanterna em seus bonés para continuar a trabalhar.

Além das botas que calça para se proteger, Lucimara veste diariamente duas calças, uma camiseta e uma blusa de manga longa. Para proteger sua coluna, ela usa uma cinta, que ameniza os movimentos repetitivos de se abaixar e levantar. Ela também calça luvas em suas duas mãos e usa um boné, no qual fez uma adaptação para servir de touca.

Apesar de todas essas condições perigosas e insalubres, Lucimara afirma que não há uma dificuldade que se sobreponha a outra. Elas existem, mas, em sua avaliação, fazem parte da rotina que escolheu para si.

Reportagens sobre aterro sanitário chegam ao fim
 
Este é o último texto desta série de reportagens que O Estado de Mato Grosso vem veiculando há mais de mês sobre os trabalhadores do aterro sanitário de Cuiabá.

Durante esse período, contamos histórias reais e relatos, como a da “Moça do Livro”, com quem não conseguimos conversar, mas cuja imagem vale por todo um texto.

Também apresentamos a nossos leitores a história de Raquel, que perdeu o contato com os filhos após decidir se libertar de seu ex-marido e que hoje mora no aterro.

Gisele Silva é outra mulher que apresentamos em nossa série. Guerreira, ela foi trabalhar no lixão após ficar viúva e constatar que não conseguiria dar uma vida confortável ao filho se ficasse no mercado formal de trabalho. Já a história de Thiago Silva Duarte revela os sonhos de um homem que ainda quer fazer faculdade e transformar a vida do próximo.

Para ler outras matérias sobre a série, acesse:  

{RELACIONADAS}


 

 

Comente, sua opinião é Importante!