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HISTÓRIAS REAIS

Catadora constrói casa em aterro sanitário de Cuiabá

Raquel Miguel de Carvalho vive há seis meses em meio ao lixo. Sua casa foi construída e mobiliada com móveis descartados

Tarley Carvalho

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19/10/2019 11h36 | Atualizada em 20/10/2019 16h22

Catadora constrói casa em aterro sanitário de Cuiabá

Gilberto Leite

Raquel Miguel de Carvalho tem 43 anos, trabalha como catadora de materiais recicláveis e atualmente reside no aterro sanitário municipal de Cuiabá. Sua história é semelhante à de tantas outras mulheres e você é convidado a conhecê-la. Crescida numa época com cultura diferente da de hoje, ela se casou aos 13 anos e teve três filhos.

Totalmente dependente do marido, Raquel não tinha sequer seus documentos. Ela conta que, quando se separou, aos 20 anos, seu ex-marido foi embora levando as três crianças, como uma forma de puni-la pela separação e forçá-la a reatar o relacionamento. Depois de perceber que a técnica não daria certo, ele mudou de endereço sem avisá-la e ela perdeu todo o contato que tinha com os filhos.

A vida não é fácil aqui fora e é ainda mais delicada no aterro, pois cada local tem suas particularidades. E nessas diferenças que a vida nos obriga a engolir, Raquel escolheu viver entre o lixo. Tudo começou quando ela decidiu passar uns dias no aterro sanitário para ajudar a tia, que também tem um barraco lá.

Vendo a quantidade de materiais recicláveis que coletava diariamente, Raquel chegou à conclusão que ali conseguiria uma renda melhor que no mercado formal, onde trabalhava como doméstica por um salário mínimo e muitas horas extras que nunca eram pagas.

O barraco foi construído com madeiras encontradas no lugar mesmo. Por algum motivo, mesmo com o sol escaldante do lado de fora, a pequena moradia é refrigerada, mesmo não tenho nenhum ventilador ligado. Todos os móveis que estão na casa foram retirados das montanhas de lixo, que crescem a cada dia.

“Tudo aqui foi tirado do lixo. Tá vendo esse fogão aqui? Peguei no lixo também. Essa estante, os copos, tudo que tenho aqui eu catei ali. Vem aqui ver o quarto”, gesticula apontando o dedo para onde os resíduos sólidos estão e convidando nossa equipe a conhecer seus aposentos, cujo chão de terra batida está escondido com um carpete de aparência sofisticada.

Enquanto nos passava um café, Raquel continuava a mostrar as coisas de sua casa. No quarto, além do carpete, duas camas box preenchem o espaço, uma delas usada como “guarda-roupas”. As paredes do quarto são preenchidas com cortinas que, por sinal, fazem parte do mesmo conjunto.

A casa também conta com dois sofás e um fogão de lenha, que ela usa quando quer se lembrar da comida feita na roça, pela qual é apaixonada. De todas as coisas dispostas no local, a única que não foi resgatado do meio do lixo foi seu botijão de gás.

O barraco não tem energia elétrica. Durante a noite, a iluminação é feita por lanterna, velas e lamparina. Em resposta ao nosso questionamento, ela afirma não ter medo de um possível incêndio causado pelas velas e pela lamparina. Segundo ela, ambas são manuseadas com muito cuidado.

A vida começou após separação

Ainda é grande o número de mulheres em relacionamentos abusivos, que dependem financeiramente de seus companheiros. Impedidas de trabalhar em função dos filhos, ou pela baixa escolaridade, ou por falta de oportunidades, essas mulheres se tornam dependente do homem, que mantém a casa e os gastos mensais.

Durante os sete anos em que esteve casada, Raquel Miguel de Carvalho era dona de casa e sempre precisava explicar as razões pelas quais precisava de dinheiro para seu marido. Comprar uma calcinha e fazer as unhas são pequenos exemplos da dependência que a catadora tinha durante o casamento. Apesar de ser apenas uma adolescente como tantas outras, Raquel já era mãe de três filhos e dona de casa.

Ela conta que uma das primeiras coisas que fez assim que se separou foi buscar sua cidadania. “No casamento, ele era muito desleixado. Por ser muito jovem, eu não tinha essa consciência de cidadania documentada, só sabia sobreviver. (...) quando me separei, fui à Araputanga (338 km de Cuiabá) pegar minha Certidão de Nascimento, vim pra Cuiabá e, só então, vim ser alguém com CPF [Cadastro de Pessoa Física], RG [Registro Geral] e carteira de motorista”, relembrou.

Ela continuou. “Se eu precisasse de calcinha ou esmalte tinha que pedir a ele. Separei, comecei a trabalhar e agora tenho o gosto da liberdade. (...) Depois da separação, minha vida melhorou cem por cento”, comemorou.

Aqui em Cuiabá, ela buscou formação profissional. Fez três cursos de culinária, um de azulejista e outro de pintura. Ela morou com a mãe durante um tempo, porém, a mãe acabou se casando novamente e ela preferiu buscar seu espaço.

Encontrei o amor

Lá no aterro, Raquel encontrou um novo amor, Marcos. Enquanto lá estávamos, ele chega. Igualmente sorridente, um tanto quanto empolgado com algo que tinha buscado na cidade, ele nos cumprimenta e faz diversas gentilezas para que nossa equipe se sinta à vontade durante o trabalho, se oferecendo até mesmo para cozinhar e fazer almoço, devido à hora em que lá estávamos.

Marcos permanece no local por poucos minutos. Após sua saída, Raquel nos conta como se sente feliz em ter encontrado um namorado que partilhe a felicidade com ela.

“A gente combina, temos uma ótima convivência. Ele não é muquirana, se preocupa sempre em nos sentirmos bem e leva a vida com alegria. Ele sempre se preocupa também com a alegria dos outros”, concluiu.

“Aqui eu tenho paz interior”

Para Raquel Miguel de Carvalho, o aterro sanitário não é só uma fonte de renda, ele representa também a sua paz interior. É lá que ela tem a oportunidade de se reconectar com a natureza, reviver a experiência que ela teve com a vida na roça. A união entre o brilho de seus olhos, o sorriso estampado enquanto descreve o cotidiano e o ambiente que a rodeia, formam um contraste abstrato e intenso.

“Gostei daqui porque gosto da roça. Minha mãe e meu pai são da roça, eu sou da roça. Aqui é uma paz! Tem o barulho das máquinas, mas quando elas não estão funcionando, você ouve o barulho dos pássaros, dos grilos, é só você e o silêncio”, poetizou.

Perto dali tem um rio. É lá que Raquel e outros moradores dali tomam banho, se refrescam aos finais de semana, lavam suas roupas e pescam. A água para consumo, entretanto, é buscada aqui na cidade. Amante da vida na roça, a catadora também cria algumas galinhas.

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