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ENTREVISTA DA SEMANA

Mariângela Sólla: Os jornais hoje têm a tarefa de serem mais críveis

Com 41 anos de formação e defensora do bom jornalismo, Mariângela concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal O Estado de Mato Grosso

Jefferson Oliveira

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20/10/2019 15h48 | Atualizada em 20/10/2019 15h58

Mariângela Sólla: Os jornais hoje têm a tarefa de serem mais críveis

Gilberto Leite

Apaixonada pelo jornalismo desde a infância, a professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Mariângela Sólla López, formou-se em jornalismo no ano de 1978 na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) em São Paulo. Durante a sua formação teve passagens pela rádio Jovem Pan e na assessoria de sindicato.

Após se formar, Mariângela teve passagens por jornais de São Paulo e em seguida se mudou para Montevidéu no Uruguai, onde atuou em emissoras de rádio e em um grande jornal do País. Ao retornar para o Brasil a professora atuou em assessorias de imprensa, até começar a ministrar aulas na UFMT.

Com 41 anos de formação, a professora disse que ao começar a ministrar aulas e dividir as experiências com acadêmicos a fez refletir e potencializar a sua paixão pelo jornalismo, pois na academia se pensa no fazer, a propor coisas novas e refletir sobre as mudanças e o que está acontecendo.

Defensora do bom jornalismo, Mariângela concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal O Estado de Mato Grosso, e defendeu o curso de jornalismo, falou sobre o cenário do jornalismo e evolução ao longo dos anos no estado e também sobre a proliferação de fake news, além de dar dicas aos futuros jornalistas.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista com Mariângela.

O Estado de Mato Grosso: Como você vê a evolução do jornalismo ao longo dos anos?

Mariângela Sólla: A evolução é muito grande, pois nós vivemos uma era da comunicação, em uma sociedade da informação, então a informação é um produto essencial hoje para qualquer cidadão. O impacto das novas tecnologias em nossa vida é algo que não podemos ignorar. Quando eu comecei, era sem celular, sem internet, sem acessar uma fonte ou documento e tinha que me deslocar para a cidade de São Paulo e quando precisava me comunicar com a redação precisava utilizar um telefone público.

OEMT: Essa mudança impacta no fazer jornalismo hoje em dia?

MS: O impacto dessas novas tecnologias no fazer jornalismo, precisa ser avaliado constantemente. Nós temos hoje o crescimento das redes sociais e digitais, e a produção de uma informação de um fato fake é muito comum.

OEMT: Com essa proliferação de fake News, como a imprensa pode se destacar?

MS: Hoje, o jornalismo se sustenta em uma imprensa que tem que ser crível, cada vez mais agindo com transparência e princípios norteadores que faça com que ela seja a fonte principal de informação do cidadão. O receptor necessita confiar na informação que ele recebe e isso se consegue trabalhando apoiado em valores, responsabilidade social, buscar a verdade sempre.

OEMT: E também nessa questão de avanço na internet como você vê a vida do jornalismo impresso? Hoje temos poucos jornais impressos circulando em Mato Grosso, pode ser devido ao avanço das tecnologias?

MS: Em Mato Grosso isso é cíclico, sempre tivemos veículos que abriam e fechavam as portas e que não é devido ao impacto das novas tecnologias não, ao contrário, se você pegar o que está sendo feito pelos grandes veículos para continuar mantendo a sua credibilidade e fidelidade dos eleitores, pegamos a Folha de São Paulo promovendo seminários com profissionais da área, buscando trabalhar essa era da fabricação de fatos e notícias, e o caminho que vem dado certo até agora, é desvendar esses fake News e mostrar para o seu público o que é notícia falsa. Os jornais hoje têm a tarefa de serem mais críveis para que as pessoas acreditem e tenha credibilidade, com trabalho sério, conteúdo de qualidade para que o consumidor da informação tenha a certeza de que não está consumindo fake News com princípios e valores que norteiam a informação e isso tem que estar claro para o público.

OEMT: Com esse avanço tecnológico, qual a sua avaliação da qualidade do jornalismo hoje piorou ou melhorou?

MS: Eu não tenho nenhum estudo nesse sentido, mas a gente lê muito e acompanha as produções. Acho que isso varia muito, como em qualquer profissão, nós temos os bons e maus profissionais, bons e maus veículos no jornalismo. Mas acho que aqueles que não tem consciência do seu papel de formador de opinião, de alguém que está ali para prestar uma informação ao cidadão para que ele possa agir de forma mais atuante na sociedade em que vive, ele não sobrevive no mercado de trabalho.

OEMT: No jornalismo você enxerga que está tendo essa polarização política de direita contra esquerda, ou há de fato a imparcialidade?

MS: A Imparcialidade é um mito. Nós temos que procurar trabalhar com isenção. Quando vamos opinar o nosso receptor tem que saber que estamos opinando, e essa diferença de texto tem que estar clara para ele o que é opinião e o que é informação. Eu ainda acredito que quanto mais apurada a informação for ouvir fontes e lados diferentes, trabalhar com valor da verdade é o caminho, mas os veículos têm lado, o importante é que o receptor saiba qual é esse lado. Há estudos na área de comunicação que nos mostram que é muito mais fácil a pessoa concordar com aquilo que está sendo dito, do que discordar, por isso o leitor, ouvinte ou receptor vai buscar aquilo que está em conformidade com o seu pensamento.

OEMT: E também nessa questão de avanço na internet como você vê a vida do jornalismo impresso? Hoje temos poucos jornais impressos circulando em Mato Grosso, pode ser devido ao avanço das tecnologias?

MS: Em Mato Grosso isso é cíclico, sempre tivemos veículos que abriam e fechavam as portas e que não é devido ao impacto das novas tecnologias não, ao contrário, se você pegar o que está sendo feito pelos grandes veículos para continuar mantendo a sua credibilidade e fidelidade dos eleitores, pegamos a Folha de São Paulo promovendo seminários com profissionais da área, buscando trabalhar essa era da fabricação de fatos e notícias, e o caminho que vem dado certo até agora, é desvendar esses fake News e mostrar para o seu público o que é notícia falsa. Os jornais hoje têm a tarefa de serem mais críveis para que as pessoas acreditem e tenha credibilidade, com trabalho sério, conteúdo de qualidade para que o consumidor da informação tenha a certeza de que não está consumindo fake News com princípios e valores que norteiam a informação e isso tem que estar claro para o público.

OEMT: O estado ainda precisa avançar no jornalismo? A questão política ainda domina as pautas, na sua avaliação isso deveria mudar ou continuar?

MS: Eu acredito que sempre há espaço para melhorar, pois se acharmos que está tudo muito bom, nós vamos estagnar. Já na questão política, isso faz parte da democracia e da nossa vida, o que me preocupa na prática jornalística é que a pessoa que está recebendo a informação ela tem que saber qual lado o veículo é. Eu trabalhei 13 anos em Montevidéu, e as pessoas quando compram um jornal lá, sabem que o jornal “A”, é do partido colorado, se compram o jornal “B”, sabem que é do partido blanco, ou se compram o jornal “C”, sabe que é simpatizante do frente amplio, e aqui no Brasil não temos essa visão claramente. O leitor comum não tem essa visão, então acho que faz parte do jogo.

OEMT: Mas por que esse jogo?

MS: Acho que a questão das verbas publicitárias ainda é um problema muito sério. Os veículos dependem das verbas governamentais que são as maiores e mais interessantes, então isso leva muitas vezes, mas queria frisar, não necessariamente, o veículo que é sério não é levado a condicionar seus conteúdos porque ele tem verbas publicitárias do governo. Sabemos que a prática muitas vezes é outra, mas está na hora também da sociedade exigir desses governos que não condicionem uma contrapartida das verbas ao conteúdo que é veiculado.

OEMT: Para os futuros jornalistas qual a sua dica e ensinamento?

MS: Primeira coisa que eu digo, é que quem for fazer jornalismo, tenha paixão pelo o que faz, tem que gostar, não fazer porque foi o que a sua nota do Enem deu para passar, esse é pior erro que está cometendo, ele tem que amar o que faz. Outra coisa é buscar sempre se qualificar, saber outro idioma, dominar outros softwares se atualizar sempre, pois cada vez mais isso vai ser exigido, e principalmente estudar muito.

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