JÁ É UM VÍCIO

'Deixa eu me matar sentindo prazer, pelo menos'

Cuiabanas estão em terceiro lugar entre as que mais consomem refrigerante no país; hábito aumenta os riscos de doenças cardiovasculares

Tarley Carvalho

Acesse o Blog

22/08/2019 08h33 | Atualizada em 22/08/2019 16h21

'Deixa eu me matar sentindo prazer, pelo menos'

Gilberto Leite | OEMT

As mulheres cuiabanas estão em terceiro lugar entre aquelas que mais consomem refrigerante no país. É o que aponta a pesquisa da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2018. A cada 100 cuiabanas, 15,3 relataram consumir a bebida em cinco dias ou mais por semana.

Os números mostram que, entre as 26 capitais e o Distrito Federal, apenas Porto Alegre (Rio Grande do Sul) e São Paulo (capital) apresentam números superiores aos de Cuiabá. A primeira apresentou índice de 18,1%, enquanto a segunda acumulou 16%.

De forma geral, a capital mato-grossense apresentou índice de 16,9%. Este número é o total de homens e mulheres entrevistados. Quando analisado por sexo, os homens apresentam a marca de 18,7%. Contudo, apesar de o número ser superior ao apresentado pelas mulheres cuiabanas, o índice masculino cuiabano não está entre os mais altos registrados no país.

À frente dele, por exemplo, estão as cidades de Porto Alegre (29%), Rio de Janeiro (23,7%) e Goiânia (22,1%), entre outras.

A PESQUISA

O levantamento sobre a quantidade de pessoas maiores de 18 anos que consomem refrigerante em cinco dias ou mais da semana faz parte de uma ampla pesquisa cujo objetivo é mapear a incidência de doenças crônicas no país, assim como os hábitos que podem causá-las.

A Vigitel faz o levantamento desde 2006, sempre ouvindo pessoas residentes nas 26 capitais do país e no Distrito Federal. Em 2018, foram ouvidas 52.395 pessoas em todo o país, sendo 2.010 em Cuiabá, todas maiores de idade. Dessas, 797 foram homens e 1.213 mulheres.

A pesquisa tem intervalo de confiança de 95% e erro máximo de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Mais jovens consomem mais

A pesquisa Vigitel sobre o consumo de refrigerante também demonstrou que os mais jovens são os que mais consomem o produto. O levantamento, que entrevistou homens e mulheres maiores de 18 anos em todas as capitais brasileiras, levou em consideração aqueles que consomem a bebida em cinco ou mais dias da semana. Os riscos desse hábito vão de ganhar peso a aumentar os riscos de doenças cardiovasculares.

No quesito idade, a pesquisa demonstra que o grupo de 18 a 24 anos é o que mais abriga pessoas com esse hábito no país. A cada 100 brasileiros entrevistados, 23,4 consomem refrigerante cinco dias ou mais na semana.

O índice é gradualmente reduzido conforme as faixas de idade. O segundo grupo mais jovem é também o segundo que mais consome refrigerante: 18,1% dos jovens entre 25 e 34 anos têm a prática de consumir refrigerante na maior parte da semana.
Idosos com idade a partir de 65 anos são os que menos consomem refrigerante. De todos os entrevistados, apenas 7% confirmaram ingerir a bebida em cinco dias ou mais da semana.

Na tabela construída pela Vigitel é possível identificar os índices por sexo.

O levantamento também relaciona a ingestão de excesso de refrigerante com a quantidade de anos de estudo que as pessoas têm. No primeiro grupo foram alocados aqueles com 0 a 8 anos de estudo, o que equivale à conclusão do Ensino Fundamental. Esses registraram o índice de 12,2%. 

O segundo grupo, constituído por pessoas com 9 a 11 anos de estudo, registrou a marca de 17%. De forma geral, esse grupo é constituído por pessoas com Ensino Médio.

O último grupo, composto por aqueles que acumulam 12 ou mais anos de estudo, registrou o índice de 13,4% de consumo de refrigerante em cinco dias ou mais da semana.

O sabor é uma pedra no caminho

A reportagem conversou com algumas pessoas que se enquadram no resultado da pesquisa Vigitel, ou seja, aquelas que consomem refrigerante por cinco dias ou mais na semana. Entre eles, o consenso: ele é gostoso e difícil de resistir. 

Diego Dênis da Rosa tem 25 anos e trabalha como garçom. Ele conta que o consumo vem desde a infância. Diego conhece os riscos que a bebida traz à saúde e afirma que chegou a suspender o consumo por um tempo.

“Fiquei um ano sem tomar e me senti diferente, mais disposto, melhorei minha forma um pouco”, comentou, afirmando que ainda deseja reduzir o consumo.

Outra consumidora assídua de refrigerante entrevistada pela reportagem é Aldriene Teodoro, de 30 anos, que mora em Campo Verde (141 km de Cuiabá). Por dia, a família consome cerca de 2 litros de refrigerante, embora, afirma, há dias em que são consumidos 4 litros.

Segundo ela, o hábito começou há quase um ano, no dia de seu aniversário, quando quebrou uma dieta de 10 meses sem o produto. Ela sabe que a bebida faz mal à saúde, mas é prática em explicar os motivos pelos quais continua a tomar.

“Eu tenho poucos prazeres na vida e esse é um dos meus. Não é justo ter tantas obrigações e ter que abrir mão de um dos poucos prazeres. A gente se mata trabalhando, estudando, se mata um pouquinho a cada dia com coisas que não dão prazer. Deixa eu me matar sentindo prazer, pelo menos”, explicou.

Acadêmica de Enfermagem, Brena Maria de Mello, de 23 anos, descreve perfeitamente alguns dos males causados pelo refrigerante, mas saber dos prejuízos não é o suficiente para uma ruptura com o hábito. Diariamente, ela consome de dois a três copos de refrigerante de 500ml cada.

O hábito surgiu logo após a perda da mãe, há quatro anos. Entre os sintomas causados pela bebida, Brena confirma ter refluxo. “O meu refluxo não é só causado pelo meu refrigerante, é mais emocional, porque eu descobri que eu tenho gastrite nervosa e piora em tempos de prova”, comentou.

Ela comenta ainda que chegou a ficar um ano sem ingerir o produto e que se sentiu mais saudável, com menos problemas de saúde, mais disposta e com o peso ideal, o qual tenta alcançar hoje depois de ganhar alguns quilos.

A jornalista Sissy Cambuim é também uma consumidora assídua do produto. Durante o dia ela acaba substituindo a água pelo refrigerante. Por dia, conta, ela consome cerca de 1,5 litro da bebida. A prática faz parte de sua vida já há mais de 20 anos.

Ela conhece os riscos trazidos pelo consumo da bebida em excesso, mas garante que a saúde é boa. “Os exames de triglicérides [gordura que dá energia ao organismo], colesterol, glicose... estão todos dentro da normalidade (...) problemas renais eu nunca tive”, comentou.

Questionada sobre o que a leva a consumir toda essa quantidade de refrigerante, ela cita a intensa atividade cotidiana. Com tantos afazeres, consumir um produto que já está pronto e que é agradável ao paladar é muito mais fácil – e mais barato – que comprar, por exemplo, um suco.

“É mais prático mesmo. Eu me alimento fora de casa durante a semana. É muito mais fácil encontrar refrigerante em qualquer lugar que eu pare pra comer, do restaurante à barraquinha de cachorro-quente. E com uma qualidade satisfatória porque suco bom é bem mais difícil”, explicou.

OS MALES DO REFRI

O consumo em excesso de refrigerante está ligado ao ganho de peso, que pode causar sobrepeso e até obesidade. Esta segunda, por sua vez, pode acabar causando diabetes, câncer e doenças cardiovasculares.

Há estudos que fazem relação entre o consumo excessivo da bebida e a elevação da pressão arterial, que pode causar doenças cardiovasculares e derrame. Outras pesquisas apontam que o refrigerante sabor cola pode estar relacionado à redução de massa óssea, o que pode facilitar fraturas.
 

Comente, sua opinião é Importante!