DIA DOS PAIS 

“Minha referência de valores”

Não importa se o pai é biológico, adotivo, afetivo ou de criação. O importante é que se haja respeito, amor e compreensão com os filhos

Valquiria Castil

Acesse o Blog

11/08/2019 08h06 | Atualizada em 11/08/2019 17h24

“Minha referência de valores”

Gilberto Leite

Aos 32 anos, o jornalista Márcio Camilo comemora seu primeiro Dia dos Pais ao lado do seu filho adotivo João Miguel, que irá completar 2 anos de idade no próximo dia 28. “É uma experiência descomunal, o sentimento de adotar e de ser pai… é difícil de descrever”, tenta explicar. Junto do pai, Edivaldo Emiliano, de 66 anos, e do filho, Márcio pretende comemorar o dia com uma programação especial entre pais e filhos.

“Tenho uma relação muito boa com meu pai. Ele é minha referência de humildade e de valores, de sempre querer aprender e ensinar, e eu quero passar tudo isso para o meu filho também”, enfatiza. 

Desde que João Miguel entrou para a família de Márcio, da esposa Keka Werneck e de sua enteada, a rotina dentro da casa ganhou um brilho diferente. “É uma alegria só chegar e ouvir o ‘pai, pai’ e me abraça, faz aquela folia. É uma delícia! Estou gostando muito de ser pai. Claro que dá muito trabalho, mas é uma fase boa”, defende, revelando a característica carinhosa e ativa do filho. 

Mesmo não tendo a ideia fixa de ser pai, a gravidez de sua esposa acendeu o sentimento paterno em Márcio, mas um aborto espontâneo deixou algo incompleto. Então o casal se abriu para a adoção. O processo de habilitação, que começou em 2014, durou dois anos até entrar para a fila de espera. Com toda a demora, Márcio conta que a expectativa de adotar uma criança havia esvaído. “As coisas mudam, surgem outros projetos”. Até que, em agosto de 2018, recebeu a inesperada ligação da Vara da Infância e Juventude de Cuiabá. 

“Éramos a 8ª família da lista a sermos questionados sobre o nosso interesse. Na hora que eu ouvi a história do João Miguel acendeu uma chama de esperança”, lembra Márcio. No dia seguinte, foram conhecer o bebê com a esposa e a enteada. “Tinha medo de não ter empatia. E ele veio assustado, acanhado com a cuidadora. Só sei que quando ele veio comigo eu já senti aquela coisa. Ele é nosso! Foi uma química muito legal”. 

O nascimento de um pai

Naquele momento em que toda a família se emocionava ao conhecer o filho, nascia também o pai Márcio. “A gente acolheu ele e ele acolheu a gente”. Daí em diante, as visitas foram diárias até que a guarda provisória liberou a ida de João Miguel para a sua nova família. “Foi uma delícia quando a gente o trouxe para cá. A família toda acolheu, ele foi muito bem inserido no meio familiar”, conta.

Keka descreve o marido como um pai “carinhoso”, qualidade desenvolvida no seio familiar de Marcio que também contribuiu para uma criação de vínculo forte. “No final das contas, acho que sempre tive essa aptidão de ser pai”, admite Márcio, que se preocupa com a educação do filho. “Quero ser amigo, conselheiro, que a gente seja muito parceiro, como meu pai é comigo e que ele possa contar comigo pro que der e vier”, pontua. 

As referências criadas dentro de casa são algo de importância para Márcio, que aprendeu ao ver a enteada crescendo e, agora, trilha o caminho da mãe, que também é jornalista. “Eles [os filhos] se espelham muito na gente. Quero que ele caminhe com as próprias pernas, que ele seja politizado, não seja machista, respeite as mulheres e as diferenças. Enfim quero passar todos esses valores e cresça um filho de cuca legal. Ele vai seguir o rumo dele e sempre que precisar estarei aqui para dar força e apoio”. 

Márcio pontua que a família agora está completa, ainda mais com o sonho de Keka de querer um menino. Mesmo ajudando na rotina da casa, é a mãe quem sempre cuida da parte mais “burocrática”. “Mãe é mãe e pai é palhaço”, brinca Márcio, aos risos, sobre a frase usada pelo pai. Com a chegada de João Miguel, a forma de lidar com a vida profissional e as desventuras do cotidiano se tornaram mais leves. “Essa experiência me trouxe um ensinamento muito bom. Dá um ânimo de vencer os leões do dia a dia e encontrar a minha família de volta em casa”, completa. 

Comemoração em dose dupla

O domingo na casa da família Rodrigues de Assunção também promete a tradicional comemoração especial do Dia dos Pais: o café da manhã preparado especialmente por Alejandro, 12 anos, para os pais, o chefe de cozinha Paulo Junior, 29, e o professor Admilson, 43. A tradição começou há três anos, quando Alejandro foi morar com o casal. 

Carinhoso e afetivo, o garoto tinha apenas 7 anos quando conheceu os pais e desde o início marcou o coração do casal. “Foi uma aproximação suave, fácil e direta. Tentei explicar que ele não teria mãe e ele aceitou nossa união”, lembra Admilson. 

A vontade de ser pai sempre foi evidente para Paulo desde o começo da relação com o marido, há 11 anos. Ainda novos, iniciaram os preparativos financeiros e estruturais para receber o filho. Alejandro guarda na memória as lembranças sobre os primeiros contatos com os pais. 

“Foi muito legal para mim. Eu era pequenininho, gostava de colo e eles me davam. Conversavam comigo”, explica o menino. “É normal para mim [ter dois pais]. É como se fossem mãe também. Para mim foi até melhor, ganho mais carinho, o dobro”, se vangloria.

Paulo é o pai entusiasmado, amigo e brincalhão, inclusive disputa com o filho jogos de videogame. Exigente, Admilson é o pai que cobra mais as notas na escola, os deveres de casa e outras obrigações. A convivência tem seus altos e baixos, como em toda a família.

“Temos um pré-adolescente em casa. Tentamos ensinar a ter bom senso e também busco compreendê-lo, porque a história dele é diferente das outras crianças”, pondera Admilson.

“Ser pai muda a vida da gente bastante, precisamos criar uma rotina que não tinha antes, de levar pra escola, cuidar da saúde, da vida social. A vida ganha outros contornos. E, com o passar do tempo, novos ciclos se abrem, agora ele é um pré-adolescente e começa a querer independência. A gente vai aprendendo a ser pai com ele”, completa. 

Ao ser questionado sobre a mensagem que deixa para o dia dos pais, Alejandro é objetivo: levanta, abraça e beija os pais com um afetuoso “Eu te amo!”. 

Comente, sua opinião é Importante!