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HISTÓRIAS REAIS

Em busca da sobrevivência: a escolha pelo lixo

A realidade de quem deixou empregos formais para trabalhar como catador de resíduos sólidos no aterro sanitário de Cuiabá

Tarley Carvalho

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11/10/2019 10h50 | Atualizada em 11/10/2019 10h51

Em busca da sobrevivência: a escolha pelo lixo

Gilberto Leite

O que é lixo para alguns pode significar oportunidades de sobrevivência para outros. No aterro sanitário de Cuiabá, por exemplo, famílias tiram do lixo o dinheiro que garante a sobrevivência da família, por meio de coleta de materiais recicláveis que revendem. 

Em meio à sujeira, chorume – aquele líquido fétido gerado pelo lixo –, um odor insuportável à maior parte das pessoas e debaixo de um sol escaldante, dezenas de pessoas sorriem enquanto trabalham não só garantindo sua sobrevivência, mas retirando da natureza materiais prejudiciais ao meio ambiente. O Estado de Mato Grosso fará uma série de reportagens sobre o tema.

Lá, todo tipo de material é encontrado e transformado em dinheiro, mas a prioridade dos catadores são as garrafas PET, o mais abundante dos resíduos. São sacos e mais sacos, as chamadas “bags”, deste material.

É por meio dessas bags também que é possível constatar a organização desses trabalhadores. Apesar de estarem amontoadas umas ao lado das outras, seus donos não as confundem ao guardar o material coletado.

MODUS OPERANDI

Agilidade é uma das características marcantes das pessoas que ali trabalham. Aliás, registra-se que é marcante, mas que não se consegue resumir, afinal, vários outros termos poderiam ser utilizados para descrever essas pessoas, muitas vezes invisíveis à sociedade.

Extremamente ágeis, eles coletam os materiais em poucos minutos enquanto o caminhão ainda está despejando o lixo, e ali mesmo já estão retirando os materiais que são de seu interesse.

A atividade não é só insalubre pela exposição a materiais em decomposição, mas pelos riscos aos quais esses trabalhadores estão expostos. Enquanto o caminhão descarrega o material coletado, com seu compartimento de compactação, as pessoas já estão em atividade, pondo até mesmo a vida em risco de acidente.

Também dividem o espaço com os catadores as máquinas que compactam ainda mais o lixo ali descartado e os urubus.

Liberdade e amor ao trabalho

Um tanto quanto curioso, as pessoas que ali passam o dia gostam do lugar. Não se trata de ser o emprego dos sonhos ou um paraíso de lugar, mas, na avaliação de quem está ali diariamente, é melhor que os empregos formais oferecidos na cidade. Também não se trata apenas de tolerar, todas as pessoas ouvidas declararam gostar de trabalhar no local.

Os principais motivos citados são referentes à liberdade de expediente, cada um trabalha o tanto que quer e que aguenta, e quanto aos ganhos mensais. Em nossa visita, encontramos pessoas que afirmam fazer R$ 850,00 mensalmente e outras que alegam ter uma renda semanal de R$ 1,2 mil.

Uma de nossas entrevistadas, Gisele Silva, está no local há oito anos. Bastante crítica, ela cita que o mercado de trabalho não oferece vagas suficientes e, quando o faz, o salário não é suficiente para se viver dignamente.

“O médico manda a gente se alimentar bem, mas como fazer isso? O legume está mais caro que a carne. O salário mínimo não dá pra fazer praticamente nada no mercado”, afirmou.
Ela conta que nestes oito anos já conseguiu adquirir o terreno e já está morando em sua casa própria, ainda em processo de acabamento. Além disso, Gisele também conta que já comprou um carro, do qual se desfez recentemente, e uma moto, que utiliza no cotidiano.

A dignidade à qual a catadora se refere é traduzida no conforto que ela pode proporcionar ao filho, de 8 anos. Depois de trabalhar no aterro sanitário, ela passou a ter condições de levar seu filho para passear no shopping e em parques, o que antes era praticamente impossível.

Sobre o expediente, os trabalhadores contam que fazem seu próprio horário, escolhendo o dia que querem trabalhar e a quantidade de horas que querem fazer, além de terem a liberdade de fazer pausas em determinados horários, como naqueles em que o sol está mais quente.

A companhia dos colegas de trabalho também é algo comumente citado pelos catadores. De forma geral, eles partilham alegria e sorriso enquanto “garimpam” as montanhas de resíduos.

O lixo e suas riquezas

No lixo se encontra de tudo, de fraldas usadas a perfumes importados, sacolas plásticas e restos de comida. E no meio de toda essa montanha de coisas descartadas pela população, letras que juntas formam palavras, frases e histórias ou estórias.

Em meio ao trabalho, a descoberta de um livro. Urubus voam ao seu redor, as máquinas apitam ao lado e movem toda a estrutura de resíduos que se transforma em seu chão, pessoas vêm e vão. A leitura, porém, não é cessada.

A mulher desconhecida, captada pelo repórter-fotográfico Gilberto Leite, para o seu serviço para abrir um livro que ali encontrou. Por minutos, ela fica imóvel, consumindo as palavras e se instruindo, seja lá qual for o conteúdo. Nossa reportagem não conseguiu conversar com a “mulher do livro”, mas a imagem fala por si.

Pode se dizer que o local é fonte de riqueza, não só no sentido figurado da palavra. Foram vários os causos que nossa equipe ouviu enquanto lá esteve. Aliás, segundo dois catadores, um rapaz que ali trabalha encontrou uma pepita de ouro momentos antes de nossa chegada.

Outras histórias – ou estórias – dizem respeito a sacos de armas e de dinheiro encontrados pelos catadores. Um de nossos personagens, Jorge Hélio, de 42 anos, detalha um destes causos.

“Uma vez eu achei um relógio, muito bonito, e dei pra um motorista que já não trabalha mais aqui. O relógio estava só com aquela parte que marca as horas, então, como o motorista gostou, eu o presenteei, o que eu ia fazer com aquilo? Aí, quando ele foi colocar a pulseira, o cara [atendente] disse que custava mais de R$ 1 mil, não lembro o valor exato agora. Ele perguntou porque aquele valor e o moço explicou que aquele relógio valia mais de R$ 9 mil”, contou.

Outra pessoa nos relata já ter encontrado uma corrente de ouro e complementou afirmando que um dos objetos mais encontrados pelos catadores são aparelhos celulares.

Fora esses, existem aqueles mais simples, baratos e que não vão para a reciclagem, mas para o consumo daqueles que ali dedicam a vida. Trata-se de vidros de perfume, eletrodomésticos, óleos de corpo e bijuterias.

Todos esses objetos que possam ter algum valor monetário não estão próximos da maior riqueza daquele aterro: as pessoas que ali trabalham, enfrentando todas as adversidades do cotidiano, com sol ou chuva, dia ou noite, mas sempre com sorriso estampado e tratando com respeito os forasteiros que por ali passam.

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