WILSON CARLOS FUÁH

Cuiabá em plena ditadura militar

23/01/2020 06h00 | Atualizada em 30/11/-0001 00h00

Cuiabá em plena ditadura militar

Arquivo Pessoal

Em plena ditadura militar, Cuiabá manteve a sua vida comunitária de sempre, os grupos sociais  e líderes políticos seguiam em frente, com os seus pensamentos e as suas reuniões no Clube Novo Mato Grosso e no Bar do Biano, onde os debates acalorados e as gargalhadas escancaradas eram alimentados pelos goles gelados das bebidas e a fome era amenizada pelos tira-gostos, e assim a vida seguia nos Anos de Chumbo do Brasil. 

Como era bom viver em Cuiabá em épocas passadas, parecia que todo mundo era feliz com pouca coisa, e ali no bairro do Areão, precisamente na Av. Coronel Escolástico, que nasce na esquina da Igreja São Judas Tadeu e termina na Igreja do Rosário, era um ponto da cidade onde todos se relacionavam entre si, e no bairro pulsava vida. 

Em 1968 foi fundado o Clube Esportivo Novo Mato Grosso, que tinha como seu presidente o odontólogo Dr. Antonio Esmela Curvo que era um apaixonado pelo futebol e sentia feliz por estar promovendo a união dos moradores daquela avenida e, à sua custa, alugou um casarão que se transformou na sede do clube,       

Nessa sede funcionava como encontro dos moradores e lá ficava como um lugar permanente da cultura cuiabana, e para cativar os moradores foram instaladas mesas de jogos de baralho, onde reinava o “Truco Espanhol”; tinha também mesas para jogos de pingue-pongue, e nos finais de semana promoviam brincadeiras dançantes, com almoços onde serviam cabeça de boi assada ou pratos tradicionais (maria-isabel, farofa de banana e sarapatel) e assim fazia a união daquele povo em torno do clube. 

E nos dias de jogos de times de futebol, reuniam-se nessa casa/sede, e dali a delegação saía para os treinos e jogos. Esse histórico time disputou o primeiro Torneio Início promovido pela Liga do Departamento Autônomo de Futebol Amador de Cuiabá e foi campeão. E essa conquista transformou-se numa grande festa, que seguiu pela madrugada afora, tão felizes os moradores ficaram até o sol nascer, e diante das calibradas alegrias, o Nhonhô Preto queria pegar o sol com a mão; o troféu e as medalhas ficavam na galeria do clube, na sala principal da sede.

Esse time teve três grandes treinadores: Jamil, Alair Fernandes e Xúm-Xúm, e o elenco campeão era formado por grandes jogadores e entre eles podemos destacar:

goleiros – Gurizinho; Hebert; Lulu; zagueiros – João Torres; Ariel; Jamil; Bodinho; Catita; Osmar; Jair; meio-campistas – Fuá (vejam o nome do autor deste artigo aqui); Nitinho; Zé Fernando; Beninho; Dito Lobi; Toninho; Canhão; atacantes – Edu; Nildo; Ratinho; Aurélio; Ditão; Filizardo; Nhonhô Preto; Piauí e Alair Fernandes. 

Quantas saudades daquele time e daquela sede! 

Por onde andarão esses jogadores? 

O Clube Esportivo Novo Mato Grosso tinha até um samba: “Se uso bebico no alto da cabeça/ dizem que sou malandro/ mas, não sou./ Sou amigo ganhador./ Se uso bebico assim/ é por causa do calor,/ ôô, Ô, ôôôôôôô,/ o Novo Mato-Grosso chegou,/ ô, ô ôôôôôôô o Novo Mato-Grosso chegou./” (“bebico”: quepe, boné de aba só na frente que era considerado, naquela época, como uso exclusivo de malandros). 

O ponto de encontro durante a semana era no bar mais famoso do pedaço: Bar do Biano, ali se reunia a nata da boemia do bairro Areão, vários representantes do mundo social da rua se reuniam para fazer os grandes pactos de amizade, entre eles havia evangélicos que bebiam escondido atrás da porta; políticos que tentavam assegurar uma vaga na Câmara Municipal; era o lugar onde os empresários discutiam proposta para um Brasil melhor, e operário e trabalhador usavam a noite para colocar em dia os infindáveis bate-papos, com “tira-gosto” e a cerveja mais gelada de Cuiabá. Inesquecível o Bar do Biano, era aonde povo do bairro e os membros do Clube Novo Mato Grosso se reuniam para passar a limpo seus sonhos e seus sofrimentos. 

Eu me lembro que os eram os personagens eram os mesmos, gente da gente, só que cada um representando o seu papel no espetáculo da vida da Rua Coronel Escolástico.

Ali pulsava vida e o povo era feliz e a socialização nascia da espontaneidade, sem divisão de classe social ou poder econômico, mas infelizmente aquela Cuiabá já não existe mais, aquela rua virou apenas ponto comercial e aquele povo hoje está espalhado pelos bairros e condomínios desta grande Cuiabá, mas aquelas lembranças ficarão apenas no arquivo mental daqueles que viveram um tempo alegre e festivo da velha Cuiabá. 

WILSON CARLOS FUÁH – Economista, especialista em   Recursos Humanos e Relações Sociais e Políticas.
Fale com o Autor: wilsonfua@gmail.com        
   

FONTE: Wilson Carlos Fuáh

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