ENTREVISTA DA SEMANA

Precisamos criar uma cultura de inteligência no agro, afirma coronel

Gabriel Soares

Editor Chefe

03/11/2019 07h08 | Atualizada em 02/12/2019 13h18

Precisamos criar uma cultura de inteligência no agro, afirma coronel

Gilberto Leite | OEMT

Após uma vida inteira dedicada a servir e proteger Mato Grosso, o coronel PM Clarindo Alves de Castro poderia ter ido descansar ao lado de sua família, só que o coração de um soldado demanda dedicação eterna ao serviço e Castro decidiu dedicar sua aposentadoria a ensinar à nova geração como proteger o legado de nossa terra.

Mestre em Educação pela UFMT e com uma extensa lista de especializações no currículo, o Coronel Castro se dedica aos estudos e já publicou quatro livros, entre os quais se destacam a história de seu bisavô, o cuiabano Mestre Hilário, e “Inteligência de Segurança Pública: um xeque-mate na criminalidade”. 

Coordenador de cursos do Instituto Cátedra, o Cel. Castro agora dá aulas sobre inteligência voltada aos negócios e à Segurança Pública. Sua principal defesa é a necessidade de construir conhecimento sobre o agroterrorismo, ou terrorismo biológico, que se constitui em uma ameaça real às pretensões do agronegócio mato-grossense. E foi sobre esse assunto que ele conversou com a reportagem d’O Estado de Mato Grosso.

Confira os principais trechos da entrevista:

O Estado de Mato Grosso - O senhor costuma falar que somos muito bons em produzir conhecimento, mas ainda falta a cultura de defendê-lo. Por quê?

Clarindo Castro - Exatamente. Tanto na parte de produção quanto na parte de tecnologia para auxiliar na produção nós avançamos muito, e o Brasil realmente é vitrine mundial com relação à produtividade. Mas a pergunta que se faz é: nós estamos preparados também para proteger todo esse conhecimento? Será que o Brasil se preocupa, por exemplo, em estudar o agroterrorismo, agrossabotagem, o bioterrorismo? 

É importante nós criarmos aqui em Mato Grosso essa cultura. Até porque do nosso PIB, 50% dele vem do agronegócio. Em função disso, há necessidade de ter uma preocupação maior. É até oportuno a nossa Assembleia criar uma Câmara Temática para discutir e estudar os impactos do agroterrorismo aqui em Mato Grosso.

OEMT - Com o Brasil se destacando no cenário mundial, ele se torna um alvo do agroterrorismo?

C.C. - Sim. Quando um país se destaca muito ele se torna um alvo. É uma nova cultura que queremos estabelecer para que as pessoas comecem a pensar sobre essas possibilidades. Aqui em Mato Grosso teve um caso que chamou muito a atenção das pessoas que trabalham nesse setor [de inteligência], que é o da ferrugem asiática, que atacou muito a soja. Começou no Paraguai, depois veio para Argentina e para alguns estados brasileiros, dentre eles Mato Grosso, e trouxe um prejuízo enorme. De 2001 a 2018, segundo dados do Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada, houve um prejuízo da ordem de 18 bilhões de reais para o estado. 

OEMT - Como a gente pode se preparar para o agroterrorismo? 

C.C. - A Agência Brasileira de Inteligência já trabalha muito forte nessa questão e tem levado esse conhecimento, essas preocupações e, principalmente, alguns protocolos de como as pessoas devem cuidar, para que seja criada essa cultura de proteção à segurança no campo, não só aquela segurança de furtos e roubos. 

Primeiro, precisamos criar essa cultura de proteção, talvez com uma Câmara Técnica que estude efetivamente essa questão. Depois: capacitar funcionários, trabalhadores, proprietários, instruir sobre como ocorreu, fazer estudos de casos, para saber quais são as medidas a serem tomadas. 

É um assunto que, pela importância do agronegócio em Mato Grosso, nós deveríamos estar discutindo efetivamente.

OEMT - O que é o Instituto Cátedra e qual seus objetivos?

C.C. - Justamente pelo tempo que eu passei na Polícia Militar, eu trabalhei muito na área de Inteligência. Fui diretor de Inteligência da Polícia Militar e da Casa Militar, e fiz vários cursos na área de Inteligência. Por conta disso, hoje eu sou professor de alguns cursos do Ministério da Justiça voltados para essa área. Hoje estou aposentado, aí estou trabalhando nessa ponte entre a iniciativa pública e a privada. 

O foco dos nossos cursos é a Inteligência, no sentido de produção do conhecimento para facilitar a tomada de decisão. O objetivo do Instituto Cátedra é isto: levar conhecimento que possa favorecer a tomada de decisão, o que, em último nível, vai beneficiar a própria coletividade. O objetivo maior nosso é que todo esse esforço culmine com uma melhoria na Segurança Pública, na paz social e na qualidade de vida das pessoas. 

OEMT - Voltando à questão do agroterrorismo, como que se dão esses ataques?

C.C. - São várias as motivações. Vamos imaginar que na geopolítica, isso eu aprendi na Escola Superior de Guerra (RJ), não existem países amigos, existem países com interesses. Quando o país, um determinado país, ascende muito economicamente, pode ser que prejudique o outro. Então, há aquelas guerras que a gente não vê, em que se podem usar como ferramenta esses ataques do agroterrorismo.

Além do fator econômico, nós temos o fator político e podemos ter fatores ideológicos também, quando um país que tem uma outra ideologia começa a trabalhar um marketing negativo para outros governantes e pode prejudicar essa nação.

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